07/02/2026

MEMÓRIAS - GRITO DE CARNAVAL


Por José Ailton Baptista da Silva. Recife-PE. Fev. 2026 aos meus 80 anos de idade.
Fotos: Itajubá, Carnaval Bom Demais: Facebook.

Enquanto espero o início dos festejos carnavalescos em Recife e Olinda me bateu uma saudade enorme dos carnavais de Itajubá.

Nada que se compare ao Galo da Madrugada, ao Bacalhau do Batata, ao Elefantes ou aos Bonecos Gigantes e ao Homem da Meia Noite, mas o som dos frevos que já se ouve pelas ruas traz memórias de todos os tipos. Muitas alegres e algumas nem tanto, em se tratando de carnaval.

Minhas lembranças mais antigas, acho que tinha menos de dez anos de idade, estão relacionadas aos desfiles de blocos.

Minha mãe e meu pai desciam com os filhos para a praça, junto com os vizinhos do Bairro dos Canudos (Cruzeiro), e na esquina do Clube Itajubense assistíamos à passagem dos blocos carnavalescos e dos foliões fantasiados.

Os blocos eram formados por operários das fábricas e por moradores de alguns bairros; o mais famoso era o da Maria Meu Bem do Porto Velho. Faziam evoluções em frente ao Clube Itajubense e a residência de Alcides Faria, palacete que adquiriu do espólio de D. Amélia Braga. Era na época a maior casa de morada da cidade e ele o dono de uma das fábricas de tecidos que patrocinavam os blocos.

Tenho vívida lembrança do fabricante de balas e doces Primo Capelo fantasiado de mulher negra com uma boneca no braço, referência a uma famosa música de carnaval de 1950 (“estava jogando sinuca/uma nega maluca me apareceu/estava com um filho no braço/ e dizia para o povo que filho era meu”) (autores Evaldo Ruy e Fernando Lobo, cantada por Linda Batista). Hoje é uma música politicamente incorreta devido ao verso e temática racista.
Houve um ano em que veio do Rio de Janeiro para desfilar uma escola de samba famosa. Só não consigo lembrar qual. Já adolescente ia às matinês ou “gritos de carnaval” na AMI (Associação da Mocidade de Itajubá), que foi demolida para a construção do Cine Presidente.

Nos bailes pré-carnaval “dava umas canjas” praticando trompete no conjunto do Alcisio Cobra no Clube Operário da Fábrica Codorna, o que propiciava meu acesso sem pagar. Era uma gloria, incentivado para praticar pelo meu professor de música Maestro Nisticó. Num grito de carnaval, que junto com dois amigos fomos ao Clube 16 de Julho da Fábrica de Armas (IMBEL), tive uma das maiores alegrias: dancei todo o tempo com uma menina loura linda, “de olhos claros como o dia” como escreveu o Chico Buarque em sua música “Até Pensei”. Eu era “gamado” nessa garota desde quando a ví pela primeira vez com seu porte altivo, na piscina da Praça de Esportes.
Não voltamos a nos encontrar. Ela casou com um rapaz da cidade e não tive mais notícias.

Junto com esses dois amigos antes de uma matinê tomamos guaraná com umas gotas de um “remédio” para criar coragem. Foi tão eficaz que dancei todo o tempo com uma menina famosa na cidade por sua beleza exótica e a acompanhei até sua casa ao final da festa.
Flertamos algum tempo nos passeios na praça, mas o namoro não foi adiante. Ela também se casou e foi muito feliz pelo que eu soube.

“E la nave va” de maneira que fico pensando como teria sido se esses encontros não tivessem acabado no carnaval. A música “Agora é Cinza” retrata isso.

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