17/05/2024

Advogada que defendeu homem preso injustamente diz que estado deve indenizá-lo: A pessoa não entra e sai 12 anos depois a mesma pessoa


Carlos Edmilson da Silva saiu de prisão em Itaí nesta quinta-feira (16). Jardineiro foi libertado por decisão da Justiça após Polícia Científica identificar homem que estuprou mulheres entre 2010 e 2012 na Grande SP. O Innocence Project Brasil é primeira organização brasileira dedicada especificamente a reverter erros do judiciário
Por Bruno Tavares, Kleber Tomaz, Philipe Guedes, TV Globo e g1 SP — São Paulo


A diretora e fundadora do Innocence Project Brasil, a advogada Flávia Rahal, que atuou na defesa do homem negro preso injustamente por 12 anos por dez estupros que não cometeu, afirmou que ele precisa receber uma indenização do estado.

"A justiça é falha. Existe uma necessidade premente que essas pessoas que são vítimas do erro sejam ressarcidas. O Estado precisa, nesse processo de reconhecer seu erro, reconhecer também que é devedor de indenização", disse a advogada Flavia.

"Foi um homem que perdeu 12 anos da vida dele, que tem uma mancha que é muito difícil de se tirar da vida. A pessoa não entra e sai 12 anos depois a mesma pessoa, e o mínimo na nossa compreensão que ela precisa ter é o amparo do Estado pra ela tentar reconstruir a vida a partir de agora", completou.

O Innocence Project Brasil é primeira organização brasileira dedicada especificamente a reverter erros do judiciário. O instituto não cobra dinheiro de seus clientes, a maioria deles carentes, como Carlos.

Como o g1 e o Jornal Nacional mostraram, Carlos Edmilson da Silva foi solto nesta quinta-feira (16). Ele foi inocentado após exames de DNA da Superintendência da Polícia Técnico-Científica apontarem quem foi o verdadeiro estuprador que atacou as vítimas (saiba mais abaixo).

A Polícia Civil afirmou, por meio de nota, que se constatadas irregularidades na investigação, vai abrir apuração na Corregedoria.

"A Polícia Civil está ciente da decisão judicial e analisa todos os fatos. Constatada qualquer irregularidade na investigação que resultou no indiciamento do homem mencionado pela reportagem, as medidas cabíveis serão tomadas, inclusive com abertura de procedimento apuratório junto à Corregedoria. A Instituição destaca que exerce suas atividades dentro da lei, de forma rigorosa, imparcial, e preza por apurações minuciosas", diz nota.

A reportagem também entrou em contato com o MP e com o TJ para saber se querem comentar a informação do Innocence Project Brasil de que todos eles falharam no caso que levou Carlos à prisão.

Prisão
Carlos tinha 24 anos quando foi preso em 10 de março de 2012 pela Polícia Civil de Barueri. À época, o jardineiro foi apontado pela investigação como o "maníaco" que havia atacado e abusado sexualmente de dez mulheres na cidade e na vizinha Osasco.

Carlos sempre negou os crimes, que ocorreram entre 2010 e 2012. Mas foi reconhecido por foto e depois presencialmente pelas vítimas na delegacia. Acabou julgado e condenado a pena de 137 anos, 9 meses e 28 dias de prisão em regime fechado pelos estupros.

Mas na tarde de quinta, ele deixou a Penitenciária de Itaí, no interior paulista, como um homem livre e inocente. Agora aos 36 anos, Carlos foi recepcionado pela mãe, Ana Maria da Silva.
Coincidentemente, o verdadeiro estuprador das dez mulheres está preso na mesma penitenciária de Itaí, onde Carlos ficou preso por 12 anos.

O verdadeiro abusador foi identificado pelo Núcleo de Biologia e Bioquímica do Instituto de Criminalística (IC) como José Reginaldo dos Santos Neres. Um homem negro também, atualmente com 34 anos, que cumpria pena por roubos. O material genético dele foi encontrado em cinco das dez vítimas. As outras cinco vítimas não fizeram exame sexológico.

A reportagem tenta localizar a defesa de José Reginaldo para comentar o assunto.

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